21. Mercadores da dúvida e politização vacinal em foco - Jornal da Ciência
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21. Mercadores da dúvida e politização vacinal em foco

Pesquisa do SoU_Ciência apresentada no Encontro Anual da Anpocs mostra como a desinformação e as disputas políticas corroem a confiança nas vacinas no Brasil no pós-pandemia

Na interseção entre memória da pandemia, crise democrática e disputas em torno da ciência, uma pesquisa do Centro SoU_Ciência/Unifesp jogou luz, no 49º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-graduandos e pesquisadores em Ciências Sociais (ANPOCS), sobre como a vacina deixou de ser consenso para se tornar campo de batalha política no Brasil pós-covid-19. O encontro, promovido em formato híbrido, ocorreu de 15 a 24 de outubro, de forma virtual e presencial, no campus da Unicamp, em Campinas (SP).

Apresentado no Grupo de Trabalho “Ciências Sociais e Saúde: conceitos e métodos”, o estudo “‘Mercadores da dúvida’, desinformação e politização vacinal: Brasil em tempos de pandemia” analisou o impacto de discursos antivacina na opinião pública e alertou para os riscos de retrocessos na adesão às campanhas de imunização. Assinada pelas Drª Vanessa Sígolo, Drª Jade Percassi, Drª Karinne Marieta Carvalho, Prof. Pedro Arantes, Prof. Maurício Moura, Prof.ª Débora Foguel, Prof.ª Soraya Smaili e Prof. Arthur Chioro, a pesquisa integra a Linha de Pesquisa 5 – “Percepção da relação entre sociedade, universidade e ciência”, em seus estudos sobre desinformação e negacionismo científico, que se dedicam a investigar como as narrativas anticiência se articulam às dinâmicas políticas e sociais contemporâneas.

Para Vanessa, a apresentação na ANPOCS reforça o papel das Humanidades em um momento de ataques ao conhecimento científico e às instituições democráticas. “É um evento muito importante para o debate crítico, para a articulação das Ciências Sociais e de uma ciência engajada com os movimentos e resistências sociais do nosso tempo, para o enfrentamento dos negacionismos, dos ataques extremistas de direita, em defesa das universidades públicas, da democracia e da vida”, afirma a pesquisadora do SoU_Ciência.

Da desigualdade histórica aos “mercadores da dúvida”

O estudo parte de um ponto já conhecido pela saúde coletiva: a hesitação vacinal no Brasil sempre esteve associada a desigualdades de renda, escolaridade, acesso à informação e aos serviços de saúde. O estudo do SoU_Ciência demonstra que, durante a pandemia, esse cenário foi reconfigurado pela ação organizada de atores que as pesquisadoras denominam “mercadores da dúvida” – figuras públicas, autoridades, grupos e redes que passaram a questionar sistematicamente a eficácia e a segurança das vacinas, explorando incertezas e amplificando narrativas conspiratórias. Essa atuação não apenas produziu ruído informacional, como inseriu a vacinação no centro de uma disputa político-ideológica, transformando a decisão de se vacinar em marcador de identidade política e religiosa. É nesse contexto que o grupo propõe o conceito de “politização vacinal”, em que escolhas individuais sobre imunização passam a expressar alinhamentos e rejeições a projetos de poder, e não apenas considerações sobre proteção coletiva e responsabilidade sanitária.

Para investigar esse processo, a pesquisa articula duas frentes empíricas. A primeira analisa evidências reunidas no Acervo da Pandemia de Covid-19 no Brasil, iniciativa do Centro que organiza conteúdos de desinformação, denúncias, materiais científicos e documentos oficiais relacionados à crise sanitária. Em cerca de 200 evidências catalogadas em diferentes formatos – áudios, vídeos, textos, postagens e pronunciamentos – o tema da vacinação aparece como um dos mais recorrentes, com documentos que propagam supostos riscos graves dos imunizantes, questionam sua eficácia, associam as vacinas a controle populacional, chips ou restrições de liberdade e atacam especialmente a vacinação infantil. A segunda frente volta-se ao estudo dos impactos da desinformação na percepção pública, a partir de duas rodadas de Levantamentos Nacionais de Opinião Pública (LOP) sobre vacinação, realizadas em agosto de 2021 e julho de 2023. As pesquisas, encomendadas pelo SoU_Ciência e executadas pelo Instituto IDEIA com amostras representativas da população brasileira (via entrevistas por telefone celular), permitem acompanhar a evolução da confiança nas vacinas e da adesão às campanhas ao longo do tempo, bem como mapear diferenças entre grupos sociais, políticos e religiosos.

Os resultados indicam um cenário de crescimento da hesitação vacinal e sinais de desgaste da confiança em políticas de imunização historicamente bem-sucedidas no Brasil. Em um dos indicadores apresentados, cerca de 7,5% das pessoas relatam ter desistido de se vacinar após a pandemia, o que, segundo o grupo, aponta para um retrocesso preocupante no Programa Nacional de Imunizações (PNI). No caso da vacina contra a covid-19, os dados mostram que a rejeição explícita era minoritária em 2021, em torno de 5,5%, e que a maior parte da população chegou a receber ao menos a primeira dose. No entanto, em 2023, apenas 17,9% dos respondentes declaram ter completado o esquema vacinal até a quinta dose – sinal de enfraquecimento da continuidade das campanhas e da percepção da covid-19 como ameaça relevante à saúde coletiva.

A pesquisa chama atenção especial para a vacinação infantil contra a covid-19, alvo frequente de campanhas de desinformação e de discursos que mobilizam medo e falsos riscos. Pelos dados apresentados, aproximadamente 66,3% dos entrevistados apoiam a imunização de crianças, mas 14,4% rejeitam essa vacinação – proporção superior à rejeição observada entre adultos, estimada em 4,7%. Para as autoras, esse descompasso revela que a disputa em torno da vacinação infantil não se limitou a embates discursivos, produzindo efeitos concretos nas decisões de parte das famílias e criando riscos adicionais para a proteção coletiva.

Outro eixo da análise é a polarização entre grupos com diferentes posições políticas, filiações religiosas e níveis educacionais. Em recortes apresentados no GT da ANPOCS, a continuidade do esquema vacinal aparece fortemente associada ao posicionamento político: eleitores de campos distintos no segundo turno de 2022 exibem índices bastante diferentes de adesão às doses de reforço, evidenciando como a vacinação passou a ser lida em chave político-partidária. Na dimensão religiosa, os dados mostram que apenas 9,8% das pessoas evangélicas afirmam ter completado o esquema vacinal até a quinta dose, em contraste com 24% dos respondentes católicos. Quando o recorte é a escolaridade, 13,4% dos entrevistados com ensino fundamental declaram ter tomado até a quinta dose, enquanto o percentual sobe para 24,1% entre aqueles com ensino superior. Esses números reforçam que a hesitação vacinal continua atravessada por desigualdades sociais históricas, ao mesmo tempo em que é intensificada por narrativas negacionistas que encontram terreno fértil justamente entre grupos mais vulnerabilizados em termos de acesso à informação qualificada.

Nas considerações apresentadas no evento, os pesquisadores argumentam que enfrentar a politização vacinal não significa expulsar a política do campo da saúde, mas recolocar a ciência e as políticas públicas em um horizonte de justiça social, transparência e responsabilidade coletiva. Isso implica manter viva a memória da pandemia, incluindo seus erros, omissões e responsabilidades; avançar em pautas de justiça e reparação pelos crimes cometidos no período; fortalecer estratégias permanentes de comunicação pública da ciência e combate à desinformação; e defender ativamente o PNI, o Sistema Único de Saúde (SUS) e as universidades públicas como pilares de proteção à vida.

Unifesp – Tamires Tavares